TEXTOS E EDITORIAIS


EVANDRO DO BANDOLIM - O MESTRE DO CHORO E DA HUMILDADE                        

Nos anos 70 mudei para um bairro na periferia de São Paulo e entre peladas na escola e as aulas do curso primário, conheci um colega que todos chamavam de “carioca”. Era um garoto recém chegado do Rio de Janeiro acompanhando seu pai e sua grande família formada por vários irmãos e irmãs todos destacados pelo sotaque inconfundível dos oriundos da capital fluminense. 

Eu ainda menino na dúvida entre em ser músico profissional e jogador de futebol , mesmo sem nenhuma vivência em ambos os campos, já tinha a noção da dificuldade de se viver de música (ou do esporte)  e ao saber que o patriarca da tal família carioca era um músico que aparecia na televisão e tocava com grandes estrelas fiquei bastante interessado em saber um pouco mais de sua belíssima história.

Na minha cabecinha de criança o que mais intrigava era como um músico que acompanhava astros da época como Elizete Cardoso, Noite Ilustrada, Nelson Gonçalves e tanto outros morava na distante periferia da cidade de SP , sem glamour, sem carrões, e tudo mais que era próprio dos astros da TV. 

Quando vi o mestre EVANDRO DO BANDOLIM na tv, se não me engano num programa do Silvio Santos, acompanhando Elza Soares não acreditei que aquele era o meu vizinho. Nosssssssa foi o máximo...O pai do meu amigo “carioquinha” , que andava ali pelo meu bairro era famoso rs rs...Isso era demais.

Por mais engraçado que pareça, a visão que muitas pessoas tinham (a ainda tem) de um músico relativamente conhecido é de que o cara era rico, morava nos jardins e por ai vai.

O mestre Evandro me fez ver naquele momento de escolhas que a carreira de músico, assim como a de ator, cantor ou bailarino era igual a qualquer outra, e que quem as exerciam eram pessoas comuns e não de seres intocáveis em cima de um pedestal.

Mais tarde entendi melhor isso quando ouvi Chico Buarque cantando uma das canções da célebre “Ópera do malandro” que dizia : “mas o malandro pra valer -não espalha- , aposentou a navalha ,tem mulher e filho e tralha e tal ....dizem as más línguas que ele até trabalha...mora lá longe e chacoalha num trem da central...Foi o fim do mito.

Depois já adulto, (e já vivendo de música) encontrei o velho mestre no seu reduto habitual na rua Aurora , no centro de SP , onde na antiga loja DEL VECCHIO demonstrava os instrumentos dessa marca aos interessados em adquirir violões , cavaquinhos e é claro bandolins. Era muito legal passar por lá e dar um alô ao “seu” Evandro...Sempre tinha grandes músicos reunidos na loja.

Ter conhecido essa figura admirável, que sustentou sua numerosa família fazendo diariamente o longo trajeto do centro da cidade à longínqua zona leste me ensinou muito sobre a realidade do dia a dia dos artistas e suas dificuldades.   

Pra mim foi um grande aprendizado que me ajudou muito no sentido de aprimoramento musical (ele sempre me dizia pra estudar muito) e acima de tudo sobre a humildade ...,própria dos gênios como o mestre Evandro.

Mais tarde entrevistando o amigo Toquinho ouvi a seguinte frase : “ser músico é uma coisa...viver de música é outra completamente diferente...não é pra qualquer um". O grande Evandro é que estava certo...A benção mestre !  

VEJA UM DOS ÚNICOS REGISTROS EM VÍDEO DO MESTRE EVANDRO



SERGIO K AUGUSTO – Músico, produtor e criador do site Festivais do Brasil.
REVISÃO - THIAGO AUGUSTO - Jornalista

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