Nesta sessão colunistas convidados escrevem mensalmente sobre a movimentação cultural de suas regiões. O maestro gaúcho Paulo de Campos radicado em Osório-RS e diretor do site www.cantadoresdolitoral.com.br escreve sobre "O que vem do sul" em contrapartida o compositor, escritor e produtor Marcos Quinan residente em Belém,escreve sobre "O que vem do norte".Tudo sobre a obra de Quinan você encontra em www.festivaisdobrasil.com.br/marcosquinan
O III RIO GRANDE CANTA OS AÇORES
Já quase no final da temporada do verão 2007/08, na praia de Capão Novo (Capão da Canoa/RS) a 140km de Porto Alegre, através da Lei de Incentivo à cultura, aconteceu o III Rio Grande Canta os Açores, obtendo o maior sucesso de participação e confraternização entre público e os artistas convidados.
Com o objetivo de divulgar a música de pesquisa feita no Litoral Norte do Estado a Casa dos Açores do RS, sob a coordenação do compositor Ivo Ladislau, realiza de dois em dois anos o festival onde participam músicos, intérpretes e compositores convidados especialmente para criarem e apresentarem músicas de temática afro-açoriana. Não há triagem, o concurso acontece já no palco.
Abrir Parênteses: O Rio Grande do Sul no período da colonização, chegou a ter dois terços de sua população formados por açorianos, e também por muitos africanos, principalmente Bantus de Angola e Congo. Os seus usos e costumes foram incorporados ao dia-a-dia da população gaúcha, principalmente a litorânea que preserva e perpetua esse legado. Fechar parênteses.
As duas primeiras edições do Festival - que tiveram a presença de muitos visitantes açorianos, membros da Direcção Regional das Comunidades e do Governo Regional dos Açores que apoia o evento – aconteceram nas cidades de Porto Alegre e Capão da Canoa nos meses de outubro de 2003 e 2005, respectivamente, pois a intenção inicial era de que o festival fosse itinerante e bianual. Agora, realizado em fevereiro (alta temporada do verão gaúcho), certamente os organizadores irão repensar, e, a partir de todo esse êxito obtido em Capão Novo, o evento passará a ser permanente nessa praia e data (fica aqui a sugestão).
Esta terceira edição teve a participação de Cilon Ramos, Adriano, Adriana e Cristian Sperandir da Cia A3; de Pedro Guerra; de Enzo y Rodrigo, todos de Osório/RS; Zellito de Santo Antonio da Patrulha; Beto Mayer de Capão da Canoa; de Beto Barros, Beto Bollo, Vinicius Brum, Leandro Cachoeira e Zé Caradípia (Asa Morena); de Kako Xavier, de Marco Araújo e Grupo Cantoria; de Cláudio Amaro, Edson Vieira e Dani Dk do Grupo Status; de Dado Jaeger e Maria Helena Anversa todos de Porto Alegre; de Chico Saga, e Mário Tressoldi do Grupo Chão de Areia (A Moenda e o Tempo) de Tramandaí; Ivan Therra, Josiel Lima e Mestre Julinho do Grupo Kikumbí de Cidreira; e ainda do meu grupo Cantadores do Litoral que além de representar várias cidades (Osório, Santo Antonio da Patrulha, Tramandai, Cidreira, Imbé e Porto Alegre) promoveu a integração fronteira/litoral com a participação de Pirisca Grecco de Uruguaiana e da cantora Loma, principal intérprete do Grupo Cantadores do Litoral. Do júri faziam parte, entre outros, o cantor Renato Júnior e o poeta Vaine Darde.
Entre as músicas – todas de excelente qualidade – destacaram-se QUANDO FALO DE AÇORES de Lucio Soares e Pedro Guerra com Kako Xavier que ganhou o Primeiro Lugar, Melhor instrumentista (Emerson Motta) e Melhor intérprete (Kako Xavier); SANTA MARIA de Cláudio Amaro, Edson Vieira e Dani Dk com Cristina Sorrentino e Grupo Status que ficou com o segundo lugar e Melhor Arranjo; INSULANO CORAÇÃO de Nilton Júnior da Silveira com Piriska Grecco, Loma e Grupo Cantadores do Litoral que obteve o terceiro lugar; e ainda CORAÇÃO LUSO-AFRICANO de Rodrigo Bauer e Chico Saga com o Grupo Chão de Areia que foi o Melhor Tema Afro-Açoriano.
Informações mais detalhadas, e muitas fotos do III Rio Grande Canta os Açores podem ser encontradas nas nove páginas especiais (cada uma em homenagem a uma Ilha Açoriana) sobre o evento no seguinte endereço:
http://www.cantadoresdolitoral.com.br/08evnts/3rgca/3rgca5.html
Outro importante festival recém realizado foi o 24º Reponte de São Lourenço do Sul, cidade situada à beira da Lagoa dos Patos, a 200 km da capital. Lá, numa parceria de Jaime Vaz Brasil e Adriano Sperandir, a música TAMBORES DE DANDARA, com interpretação de Adriana Sperandir e CIA A3, foi a vencedora da linha livre, resultado muito bem aceito e aclamado pelo público e imprensa.
Sendo assim, no Rio Grande do Sul, 2008 começou muito bem para o movimento musical do Litoral Norte, aliás o final de 2007 já havia sido bom, pois Kako Xavier, Paulinho DiCasa, Mário DuLeodato e a Tribo Maçambiqueira foram os vencedores do MUSICANTO, um dos mais importantes festivais do Estado.
(Esta coluna especial para o Portal Festivais do Brasil, encontra-se disponível também no Portal Açores.net das Ilhas Açorianas)
O que vem do Norte
O QUE VEM DO NORTE
A pesquisa encomendada pelo Sistema Fecomércio-RJ é quem nos dá os números e eles merecem reflexão e muita atenção da família, cuja importância é decisiva, dos gestores da educação e dos professores, que na verdade deveriam ser educadores e, lamentavelmente em sua grande maioria, não são.
No ano de 2007 mais da metade dos brasileiros passaram longe de qualquer programação cultural e, 69% deles não leram sequer um livro, um único livro. Falta de hábito foram na maioria as respostas.
A urgência faz a hora de exigir dos professores que leiam alguns livros por ano como obrigação curricular e funcional. A urgência faz a hora de aparelhar nossas escolas com bibliotecas e obras diversificadas e atuais, para incentivar e influenciar os estudantes e suas famílias no habito da leitura.
No País existem hoje um pouco mais que seis mil bibliotecas públicas e, a quase totalidade delas, mambembes e entregues ao descaso absoluto. Nas poucas escolas da rede de ensino que mantém alguma funcionando, a pobreza do acervo é vergonhosa.
Na Amazônia geográfica existem mais ou menos trezentas bibliotecas públicas, mas o número de organizações privadas é incalculável, as tais não governamentais, que não se sabe direito o que fazem, mas sobrevivem usando benesses do poder público – imóveis, verbas, isenções de impostos, transito facilitado etc... Poucas, mas muito poucas mesmo, exercem o objetivo social de educar o homem.
A abnegação de alguns é insuficiente. Somos a 11ª economia do mundo com uma assustadora deficiência de conhecimento. Achar que a modernidade da Internet vai resolver todos os problemas é no mínimo uma irresponsabilidade. Ensinar a ler primeiro é que pode abrir o universo para todas as possibilidades adormecidas em nossos estudantes. Moderno é saber ler, escrever, se conhecer, raciocinar, interagir e se formular diante da vida.
Ainda jovem, se descobriu na leitura, na literatura, no convívio com a obra de grandes escritores e poetas, desvendando e reconhecendo seu próprio caminho.
Os primeiros versos, a música brasileira, mais um deslumbramento - outro reconhecimento.
Na esquina da Av. 1° de Dezembro com a Rua Itororó, ( hoje Dr. Enéas Pinheiro) em Belém, entre um grupo de jovens artistas e suas inquietações - o sonho e os primeiros companheiros.
No contato com as obras dos poetas, compositores e cantores independentes pulsando para se consolidarem definitivas – O sonho, os companheiros e a forma – tudo junto, era mesmo seu caminho.
Com a simplicidade estampada em cada gesto a timidez não o revela, apenas disfarça a sabedoria de capturar discretamente a vida ao seu redor para reordenar seus sinais na intimidade da sua criação. Não pensem em solidão, é intimidade mesmo, é o momento em que se transmuda para seduzir as palavras, cantarolar para frases inteiras, deflorar metáforas e copular com a inspiração, que aonde vai o segue como chama que nunca se apaga.
É do interior, nascido uma e muitas vezes aqui e por aqui. Como parido de onça, de um igarapé, de uma magra palmeira ou num batuque enquanto a flecha passava. Também nasce de versos e rimas, de brasis e de pessoas, nasce do centro, dos lados ou do interior de algum detalhe quase imperceptível.
É um dos maiores poetas e letristas da Amazônia e do Brasil. De sua obra muita coisa ainda é inédita, não só na poesia como nas centenas de letras musicadas.
Do letrista apenas uma pequena parte esta registrada pelos próprios parceiros e alguns outros artistas, talvez nem vinte por cento das canções feitas com Lôbel, Luhli e Lucina, Nilson Chaves, Rafael Lima, Walter Freitas, Genésio Tocantins, Eudes Fraga, Elton Ribeiro, Juraildes da Cruz, Jean Garfunkel, Mário Moraes, Marco André, Cláudio Lobato, Lano Cabral, Marco Antônio (Marcão), Salomão Habib, Albery Jr, Cláudio Nucci, Jane Duboc, Telma Tavares, Marta Strauss, Madan, Paulo Fraga, Rafael Altério, Ziza Padilha, Sérgio Souto, Enrico Di Miceli, Celso Viáfora, Chico César, Vital Lima, Sebastião Tapajós, Felipe Cordeiro, Pedrinho Callado, Osmar Júnior, Marcelo Sirotheau, Aldo Moreira, Zé Miguel, Pedrinho Cavalero, Amadeu Cavalcante, Val Milhomem, Augusto Hijo, Mário Mouzinho, Helder Brandão, João Milhomem, Ricardo Iraguani, Vicente Moura, Marcelo Schneider, Cléverson Baia, Vicente Barreto, Zeca Baleiro, Marco Antonio Quinan, Cuca Nonato, Zé Luiz Manechi, Pratinha Saraiva, Orestes Mourão, Tó Nascimento, Macário Lima, Irene Portela, Tato Fischer, Klébi Nori, Delço Taynara, Fernando Carvalho e comigo.
Difícil andar pela Amazônia sem ouvir e cantarolar um verso saído de seu ofício, na música de algum parceiro. Mais difícil ainda não entender sua influência esparramada pelo caminho que percorre.
Mestre-aprendiz - orgulho de todos os companheiros, parceiros, amigos, irmãos e muitos brasileiros.
Sua obra é também recomendada para quem quer conhecer e falar da Amazônia ou entender melhor a palavra simplicidade.
À Benção Joãozinho Gomes,
Marcos Quinan
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