Nesta sessão colunistas convidados escrevem mensalmente sobre a movimentação cultural de suas regiões. O maestro gaúcho Paulo de Campos radicado em Osório-RS e diretor do site www.cantadoresdolitoral.com.br escreve sobre "O que vem do sul" em contrapartida o compositor, escritor e produtor Marcos Quinan residente em Belém,escreve sobre "O que vem do norte".Tudo sobre a obra de Quinan você encontra em www.festivaisdobrasil.com.br/marcosquinan
“tem como fazer um tablado de madeira, cobrir com terra batida e captar com microfones por baixo”
Ouvíamos as músicas do compositor e seus parceiros, uma reunião de trabalho informal.
Eles, os produtores e eu, anfitrião e convidado a dar palpites e confirmar idéias. A música pedia o som de pés arrastando no chão como os índios que, por esta influencia, nossos roceiros também dançam. Um dos autores, também produtor assim pedia. A solução estava dada, parecia já estar pronta.
Minha atenção se desviou por um instante da obra prima que estávamos ouvindo e fiquei olhando os três, confundido. Pareciam um e eram três.
Puxei na memória alguns momentos de convivência, nossas conversas e brincadeiras. Lembrei da pergunta de um deles num encontro casual “samba de cacete existe mesmo”, de indagações sobre algum termo indígena, lembrei de precisões absolutas em algumas apresentações que assisti, de muitas brincadeiras feitas nos bastidores dos teatros. Assim naquela mesma noite comecei a desvendar o mistério daquela trindade.
Um trio, formado na convivência de quando cursavam o Conservatório Carlos Gomes (Belém-PA), se dedicaram, também individualmente, ao aprofundamento do ofício e na pesquisa da diversidade percussiva regional, principalmente amazônica e brasileira.
Novos, atentos para o conhecimento, ávidos pelos modos, pelas possibilidades de cada sonoridade, pelo melhor fazer. Nunca perdem o respeito pelos valores culturais que pesquisam, aprendem e ensinam com invejável humildade. Sabem o que é modernidade sem arvoro ou alarde.
Formado por Nazaco Gomes, Márcio Jardim e Kléber Benigno (Paturi) o Trio Manarí por onde vai, seja pelo interior, pesquisando, seja para o exterior, sozinhos ou acompanhando outros artistas, num estúdio gravando discos, trilhas e até mesmo nas oficinas que ministram regularmente, ensinando rudimentos da teoria musical, criação e manuseação de instrumentos - induzindo o participante a buscar sonoridade própria a partir deles - , jamais abandonam a alegria do conhecimento novo, do aprendizado espontâneo que fazem na convivência com o em volta.
O Trio Manarí estampa valores por onde passa. Mesmo quando configurado em apenas um deles, Nazaco, Márcio ou Paturi esbanjam bem fazer com simplicidade de mestres que são.
Desvendados, não são apenas um grupo de percussão, a especialidade deles é a harmonia. Desde a formação, um são três e os três estão em qualquer um deles até quando pinçam o som mais sutil da natureza para entregar a um instante.
Nazaco, Márcio e Kleber escrevem um capítulo especialíssimo na história da música amazônica e brasileira, com a harmonia e a simplicidade ritmando com a alegria e a determinação.
Aqui, Manariando, peço,
À benção amigos queridos.
Marcos Quinan
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O que vem do sul por Paulo de Campos Silvio Genro Destaco uma das maiores expressões do cancioneiro popular regionalista do Rio Grande do Sul: o poeta e compositor uruguaianense Silvio Aymone Genro. A razão desta homenagem, não é o seu reconhecido, respeitado e inegável talento; e sim a sua sincera, bonita, pura e perpétua amizade. O que, por si só, se justifica. Mas vamos além: nossa forma de pensar o fazer cultural de nosso estado. Ele, lá em Uruguaiana (fronteira com a Argentina); eu, aqui no litoral. Extremos? Opostos? Longínquos?... Não! Conscientes raízes buscando o novo. Contestadoras, corajosas e comoventes sinceridades. Árdua e dura luta pelo crescimento e solidificação da nossa cultura em toda a sua plenitude e diversidade. Isso se faz tão necessário e atual.
Assim é apresentado Silvio Genro:
Silvio foi guri campeiro e aprendeu a "acolherar as letras" com professora de campanha durante a infância vivida entre os horizontes largos de Plano Alto, 3° Distrito do Município de Uruguaiana, o que explica seu profundo amor às raízes e também as asas ágeis de sua poesia social e libertária.
Construiu o seu primeiro "instrumento musical", uma violinha de caixa de goiabada, com cordas feitas de quatro fios da cola de algum matungo (cavalo), aos nove anos.
A visão maior de mundo veio da metamorfose de saberes vivenciada nos tempos de internato no "Colégio dos Padres", o centenário Colégio Santana. Foi lá que aprendeu com o colega e mestre Mário Barbará, as primeiras lições de composição e a "arranhar" algumas notas no violão.
Época também, da militância na política estudantil através da União Estudantil Uruguaianense, naqueles árduos e bons tempos da juventude inquieta e contestadora das décadas de 60 e 70.
O espírito crítico, idéias e ideais, amadureceram ao longo dos cursos de Estudos Sociais e História no fértil convívio acadêmico Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Uruguaiana.
Foi artesão "hippie" na década de setenta, sua primeira atividade remunerada. Na 7ª edição do festival Califórnia da Canção estreou como compositor nativista pelas mãos do "Grupesquisa” com a composição "Tempos de Seca", logo premiada como Música Mais Popular do Festival.
A partir de 1983 inicia carreira como intérprete de composições de sua autoria e parceiros, especialmente as de maior apelo popular, formando junto com Caio Silva, Getulio Rodrigues, Mauro Greco, Cleber Soares e Marcelo Quadros o "Grupo Macanudo", com o qual conseguem várias premiações de "Música Mais Popular" chegando a atingir o sucesso junto ao grande público dos Festivais Nativista do Rio Grande do Sul.
Nos últimos anos exerce a profissão de professor em escolas públicas de Uruguaiana, paralelamente as suas atividades artístico-literárias. Como poeta, músico, compositor e jurado, tem mais de trinta anos de participações no movimento cultural nativista do Rio Grande do Sul, tendo vencido diversos festivais do gênero e premiado em outros tantos, entre eles, foi ganhador da Calhandra de Ouro na 25ª Califórnia da Canção Nativa, o mais cobiçado prêmio dos festivais gaúchos. Lançou dois discos autorais: "Causos e Canções" em 2003 e “Violinha” em 2008.
Seja como Poeta ou Professor, seu trabalho consciente e crítico nas áreas de educação e cultura sempre denunciou uma profunda vocação, teimosia até, em apresentar-se como agente de transformação da sociedade através de tudo o que aprendeu a ver, ouvir, pensar e sentir a respeito do seu tempo, do seu lugar e da sua gente.
Dizia o poeta, músico, cantor e compositor gaúcho Luiz Menezes: "O talento, aliado a linhagem humanística de Silvio Genro, o torna uma das maiores expressões do cancioneiro popular regionalista do Rio Grande do Sul. Da poesia do Silvio sempre esperamos o bonito nostálgico mesclado a uma comovente sinceridade, seja cantando o seu amor as coisas da querência ou, as alegrias e amarguras de nossa gente.”
Segundo o poeta e escritor Alcy Cheuiche: "Os poemas-terra de Silvio Aymone Genro abrem, com suas mágicas vibrações, os subterrâneos da alma e revelam tesouros de sensibilidade. Têm cheiro de bem-me-quer, gosto de pitanga e cor de campo, pampa e querência, são versos para sobreviverem aos tempos. Novos como a lua nova. Antigos como a lua no céu."
Usando a imagem das cidades de Lona (formavam-se grandes acampamentos nos festivais), já no final dos anos oitenta, Silvio vislumbrava - de uma forma bem humorada, mas cheia de verdades - a decadência dos festivais nativistas ditos “fechados” que insistiam e em regrar, direcionar e rotular a nossa cultura:
“...Nossos êxodos rurais Eram recantados pago a fora Por nós, burgueses disfarçados Em "Chico-Buarques" de esporas
E pelas cidades de lona O povo não tava nem aí E misturava Pink Floyd Com Noel Guarani
Hoje os festivais de chatice nativa são tudo uma mesmice só, Onde o que se canta de novo é mais velho que a minh'avó!
A pobre música campeira Que, atualmente, a gente faz Pedro Raymundo já fazia - E bem melhor - anos atrás
E pelas cidades de lona O povo não tava nem aí E o nativismo desbotava Junto com as "bombachas Lee"
E agora, que o sonho nativo Acabou nesse pesadelo infeliz Sem democratizar os campos Nem agauchar o pais.
Hoje nos dói na consciência Ver que tudo o que se fez Foi tão somente perpetuar O "status quo" dos CTGs
E pelas cidades de lona O povo não tava nem aí E "dê-le que dê-le" "Velho Barreiro" com abacaxi...”
Outros versos marcantes de Silvio Genro:
"Se os senhores da guerra mateassem ao pé do fogo deixando o ódio pra trás antes de lavar a erva o mundo estaria em paz."
“Terra da gente, essência de gente e terra, que lições de vida encerras terra humilde e tão capaz! E pensar que ainda há gente que em teu nome faz a guerra sem saber que gente e terra são sinônimos de paz!!!”
“Atenção no interior, Nico changueiro, onde se encontrar... Peço que venhas ou mande dinheiro. -Quem ouvir este, favor lhe avisar...”
“E o velho peão, afinal Terá sua compensação: -No fim do mês, Funrural, No fim da vida, abandono e solidão...”
“Pra construir consciências, afrontar a prepotência e denunciar a omissão... Pra unir, anseio e ação e enfrentar a tirania, ou semear democracia, - nos basta, verso e canção!”
Criação - Sérgio K. Augusto - Festivais do Brasil - Av. Alziro Zarur , 860 - São Paulo - SP - Cep 03570 000 - Fone / Fax (11) 67439718 - 97061800