Nesta sessão colunistas convidados escrevem mensalmente sobre a movimentação cultural de suas regiões. O maestro gaúcho Paulo de Campos radicado em Osório-RS e diretor do site www.cantadoresdolitoral.com.br escreve sobre "O que vem do sul" em contrapartida o compositor, escritor e produtor Marcos Quinan residente em Belém,escreve sobre "O que vem do norte".Tudo sobre a obra de Quinan você encontra em www.festivaisdobrasil.com.br/marcosquinan . Balanceando as idéias o músico e jornalista Thiago Augusto escreve sobre diversos temas ligados a música na coluna "Firmeza total" . www.myspace.com/thiagobaugusto | www.twitter.com/thiagobaugusto
Antes do texto, o contexto. Eu me lembro que, quando na barriga da minha mãe, já escutava os primeiros “acordinhos”, que eram tocados por meu pai, através da vibração promovida pelo cordão umbilical. Sério mesmo, acredite se quiser, eu lembro. Rs. Com o tempo, a sonoridade que vinha do lado externo das paredes “barrigais” se tornou cada vez mais familiar para minha natureza, e, assim, em berço musical, que o, até então, pimpolho veio ao mundo. Entre a miscelânea musical que adentrava meus ouvidos, o som dos artistas dos festivais sempre ganhou destaque em meu gosto. Os LP´s da Fampop, os discos de Ilha Solteira, os trabalhos dos amigos do meu pai que chegavam em casa pelo correio, trazendo sempre uma dedicatória e o agradecimento pela amizade construída nos “festivais”, todo esse universo alternativo fazia com que o som proporcionado pela mídia dos anos 90 ficasse em segundo plano em meu cotidiano. É claro que a influência da turma do “pagodão”, que sentava no fundão da minha sala de aula, as festinhas da adolescência e todo o apelo do jabá televisivo, fizeram com que eu, também, desse uma viajada pelo mundo dos “rebolations” da vida. E quer saber do mais? Isso tudo fez muito bem! É bom conhecer o lado “trash” das coisas. Seguindo em frente. O violão surgiu, despretensiosamente, em meu quarto, e, aos poucos, ganhou espaço no meu dia. Sergião escreveu o desenho dos acordes em um sulfite que trazia vários bracinhos do violão impressos, a partir daí foi por minha conta. Costumo dizer que minha vida mudou a partir do momento que “furtei” a revistinha que trazia as cifras de todas as músicas do disco “Ao Vivo” do Djavan. Aí sim, hein. Começou a pintar um som mais colorido em minha vida. Mais tarde, o Conservatório Dramático e Musical “Carlos de Campos”, em Tatuí-SP, tratou de me ensinar um monte de coisas que, hoje em dia, estão armazenadas em alguma parte do arquivo morto do meu cérebro, pois, é difícil recordar com naturalidade as inúmeras harmonias e arpejos mirabolantes que um dia fiz. Que merda, não? Talvez seja por isso que meu violão ainda seja um tanto quanto “enganador”. Que meu professor, Alexandre Bauab Júnior, vulgo Zé, não leia essa parte do texto. Enfim, após dois anos de tentativas frustradas de aprender a ler as partituras do Guinga e do Pixinguinha, resolvi virar jornalista. Até hoje, quatro anos depois do vestibular, ainda me pergunto o porquê disso. Porém, cá estou, quase formado, escrevendo um monte de groselha, mas com a certeza de que fiz uma coisa bacana para minha vida. E, nesse meio tempo, entre as andanças pela boemia paulistana, a correria de escrever uma pancada de matérias e, ainda, as “chatíssimas” rodas de violão (que eu quase não gosto, rs), farei companhia a Marcos Quinan e Paulo de Campos, colunistas do festivaisdobrasil.com.br, com a coluna “Firmeza Total!”, que trará os meus meros pitacos sobre a música que vem de Sampa, histórias e “causos” bacanas que acontecem nos festivais pelo Brasil afora, cobertura de alguns desses, além das loucuras do cotidiano de um não tão pacato paulistano. Saudações a todos!
Thiago Augusto thiagobaugusto@hotmail.com | thiago@festivaisdobrasil.com.br www.myspace.com/thiagobaugusto | www.twitter.com/thiagobaugusto
O que vem do sul por Paulo de Campos
A MOENDA REVERENCIA UMA GRANDE CANTORA
NEGALOMANIA Nestes últimos tempos temos estado muito juntos. E, fica difícil falar sobre alguém tão próximo. Gosto do que fazemos nos Cantadores. É Marcante. Apesar de ser - para nós - apenas mais um (re)começo... Loma ziguezagueia com classe, força e graça Onde o afro, o gaúcho, os brasis, o litoral e os Açores Mesclam-se magicamente numa gostosa mestiçagem cultural Apresentada por belos arranjos, cheios de complexas e sensíveis Nuances em suas harmonias e contrapontos. Impôe-se também, a eterna marca pessoal: A sua singular, bonita e (por todos nós) megaloamada voz. ( Paulo de Campos) A homenageada da 25ª Moenda da Canção Loma Berenice Gomes Pereira nasceu em Recife, de pai pernambucano e mãe de Santo Antônio da Patrulha. Mas com dois meses já estava em Porto Alegre. Desde o grupo escolar sempre cantou, e a chance da carreira musical veio em 1973, quando passou a integrar o grupo Pentagrama, liderado por Ivaldo Roque e Jerônimo Jardim, primeiro a mesclar samba e música nativista. Depois de participar da Califórnia da Canção e gravar um disco com o grupo (1976), Loma foi tentar a sorte no Rio de Janeiro. Estudou música, participou como vocalista em discos de Gilberto Gil, Alceu Valença, Kleiton & Kledir e Elza Soares, entre outros, voltando a Porto Alegre em 1983 para fazer seu primeiro disco. Entre idas e vindas, três anos depois resolveu entrar com força nos festivais, cantando várias vencedoras (entre elas Parentes na África, da 7ª Moenda) e obtendo mais de 15 prêmios de intérprete. Tem cinco discos e hoje integra o grupo Cantadores do Litoral. Loma é intimamente ligada à música do Litoral Norte e não lembro de outra vez em que algum festival tenha homenageado uma mulher, e mais, uma mulher negra. (Juarez Fonseca) Loma começou sua carreira em mil novecentos e setenta e três, como vocalista do grupo Pentagrama, um dos principais responsáveis pelo movimento renovador que eclodiu àquela época na música produzida no Rio Grande do Sul e que projetou nacionalmente alguns compositores e intérpretes radicados em Porto Alegre. Em poucos anos de carreira, firmou-se a ponto de ser apontada pela imprensa gaúcha como a melhor cantora em três anos consecutivos - mil novecentos e setenta e oito, setenta e nove, e oitenta., e em tantos outros anos não consecutivamente até hoje. No início da década de oitenta, já em carreira solo parte para o Rio. Apresenta-se ao lado de artistas renomados como Amelinha e Zé Ramalho, e participa de gravações de discos de Gtlbero Gil, Alceu Valença, Elza Soares, Cristina Buarque, Kleiton & Kledir, Velha Guarda da Portela e percorre os palcos do Rio, de São Paulo, de Minas, da Bahia e de outros estados do Nordeste lançando seu primeiro disco. A partir de mil novecentos e oitenta e cinco, volta a fixar-se no Rio Grande do Sul. Lança um novo trabalho - "Toda Mulher" - e ao fim de 89 é eleita pela crítica especializada e por representantes de entidades de produção musical e de produção cultural "a Melhor cantora da Década". Em mil novecentos e noventa e dois, lançando seu terceiro disco - "Um Mate por Ti" - é indicada ao prêmio Sharp na categoria Cantora Regional. Já por essa época acumulava aproximadamente trinta prêmios de Melhor intérprete, conquistados em festivais de Música Realizados no Rio Grande do Sul. Segue nesta trajetória, até meados de noventa e oito, quando passa a dedicar-se à produção do show e do disco "Além-Fronteiras", lançado em agosto no Rio Grande do Sul e em novembro, em Brasília. Loma / Além Fronteiras é um disco e um espetáculo que explora a versatilidade, a força interpretativa e a voz singular da cantora em Sambas, Salsas, Maçambiques (Ritmo próprio dos negros do litoral gaúcho), Maracatu, Maxixe, Carimbó e músicas do cancioneiro gaúcho. O CD "Além Fronteiras", no ano de dois mil, recebeu o Prêmio Açorianos de Melhor Intérprete e Melhor CD da categoria MPB gaúcha. A cantora, desde que retornou do centro do país (década de oitenta), vem sendo convidada pelos compositores, pesquisadores e produtores que atuam na montagem de espetáculos para a divulgação da cultura afro-litorânea, a partir das ações culturais com vistas a expansão desse ritmo genuinamente afro-gaúcho. Como resultado dessas pesquisas e andanças, Loma atualmente é participante do Grupo "Cantadores do Litoral" ao lado de renomados e talentosos músicos e compositores nativos do litoral. Loma é uma cantora gaúcha com uma larga trajetória profissional e cujo trabalho é reconhecido nacionalmente. Para seu crescimento, aprofundou-se no estudo de teoria e solfejo na Escola de Música do Sindicato dos Músicos do Rio de Janeiro. Loma tem quatro discos individuais lançados: Loma (1985), Um mate por ti (1992), Loma-Além fronteiras (1998) e Ziguezagueando (2005). Desde 2002, Loma é integrante do grupo Cantadores do Litoral, que vem divulgando pelo Brasil, Canadá e Portugal o legado afro-açoriano no RS. Com este grupo lançou em 2009 o CD Cantadores do Litoral que foi indicado para o prêmio Açorianos de Música e lhe proporcionou o Premio Vitor Mateus Teixeira como Melhor Cantora do Ano e ao grupo foi outorgado pela Assembleia Legislativa do Estado o mesmo prêmio na categoria Melhor Grupo de Show do ano de 2009. “Com um repertório e arranjos de qualidade, somados a uma turma de bons músicos e parceiros, Loma continua bem. Infelizmente, para a 'indústria fonográfica do entretenimento', este tipo de artista não se encaixa em seus projetos comerciais. O Que é uma pena, pois a cantora Loma é um grande talento e merece fulgurar e figurar entre as grandes cantoras brasileiras. Podem conferir (Augusto-Toque Musical) “O Grupo Cantadores do Litoral tem, para mim, a melhor cantora brasileira! Eu sou muito fã dela há muitos e muitos anos! Ela é uma cantora que toda a vez que canta, nos encanta aqui no Programa Galpão Crioulo!” (Neto Fagundes-RBSTV). “O grande barato na atualidade, não é mais a música vinda do campo, mas, sim, a litorânea, que fala no mar, nos pescadores, com ritmos de maçambiques e quicumbis, heranças benditas de origem afro açoriana,, tendo na cantora Loma, a grande referência. Este CD Ziguezaguendo, considero-o como sendo o melhor de 2005, no gènero, pois possui, além do mágico timbre da voz de Loma, belas interpretações de difíceis temas. Trata-se do melhor trabalho gravado até hoje. Agora, ninguém segura mais o canto litorâneo. (Glênio Reis- Rádio Gaúcha) Conheço Loma desde Sempre. Quando começamos com os Almôndegas ela estava ao nosso lado com o Pentagrama. De lá pra cá andou ziguezagueando por todos os cantos possíveis do Brasil. E quando falo em cantos, quero dizer nos dois sentidos: andou por todos os lugares e também por todos os tipos de canções. Sempre com talento. Volta e meia, entre um zigue e um zague, ela cruzava com a gente. Como foi na gravação de Deu Pra Ti e de tantas outras coisas bacanas que fizemos no Rio de Janeiro. Recentemente, em mais um desses ziguezagues da vida, fomos parar juntos em cima do palco, em Osório e Santo Antônio da Patrulha, cantando e dançando o maçambique no espetáculo KleiTon & KleDir e CanTadoRes do LiToRal, JunTos. Ali percebi finalmente porque ela ziguezagueava tanto. Andava procurando aquilo que agora me parece obvio, uma deliciosa mistura musical que vem de suas raízes afro-açorianas. Loma encontrou o que buscava há tempos. (Kledir Ramil)
“tem como fazer um tablado de madeira, cobrir com terra batida e captar com microfones por baixo”
Ouvíamos as músicas do compositor e seus parceiros, uma reunião de trabalho informal.
Eles, os produtores e eu, anfitrião e convidado a dar palpites e confirmar idéias. A música pedia o som de pés arrastando no chão como os índios que, por esta influencia, nossos roceiros também dançam. Um dos autores, também produtor assim pedia. A solução estava dada, parecia já estar pronta.
Minha atenção se desviou por um instante da obra prima que estávamos ouvindo e fiquei olhando os três, confundido. Pareciam um e eram três.
Puxei na memória alguns momentos de convivência, nossas conversas e brincadeiras. Lembrei da pergunta de um deles num encontro casual “samba de cacete existe mesmo”, de indagações sobre algum termo indígena, lembrei de precisões absolutas em algumas apresentações que assisti, de muitas brincadeiras feitas nos bastidores dos teatros. Assim naquela mesma noite comecei a desvendar o mistério daquela trindade.
Um trio, formado na convivência de quando cursavam o Conservatório Carlos Gomes (Belém-PA), se dedicaram, também individualmente, ao aprofundamento do ofício e na pesquisa da diversidade percussiva regional, principalmente amazônica e brasileira.
Novos, atentos para o conhecimento, ávidos pelos modos, pelas possibilidades de cada sonoridade, pelo melhor fazer. Nunca perdem o respeito pelos valores culturais que pesquisam, aprendem e ensinam com invejável humildade. Sabem o que é modernidade sem arvoro ou alarde.
Formado por Nazaco Gomes, Márcio Jardim e Kléber Benigno (Paturi) o Trio Manarí por onde vai, seja pelo interior, pesquisando, seja para o exterior, sozinhos ou acompanhando outros artistas, num estúdio gravando discos, trilhas e até mesmo nas oficinas que ministram regularmente, ensinando rudimentos da teoria musical, criação e manuseação de instrumentos - induzindo o participante a buscar sonoridade própria a partir deles - , jamais abandonam a alegria do conhecimento novo, do aprendizado espontâneo que fazem na convivência com o em volta.
O Trio Manarí estampa valores por onde passa. Mesmo quando configurado em apenas um deles, Nazaco, Márcio ou Paturi esbanjam bem fazer com simplicidade de mestres que são.
Desvendados, não são apenas um grupo de percussão, a especialidade deles é a harmonia. Desde a formação, um são três e os três estão em qualquer um deles até quando pinçam o som mais sutil da natureza para entregar a um instante.
Nazaco, Márcio e Kleber escrevem um capítulo especialíssimo na história da música amazônica e brasileira, com a harmonia e a simplicidade ritmando com a alegria e a determinação.
Aqui, Manariando, peço,
À benção amigos queridos.
Marcos Quinan
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