NA RODA VIVA DOS FESTIVAIS - Parte III

 

1966 chegou com novidades e a TV Record assumiu a realização do festival no lugar da Excelsior. Assim, entre setembro e outubro foi realizado o II Festival de Música Popular. Enquanto os súditos da rainha comemoravam sua primeira – e única – Copa do Mundo, do lado de cá do Atlântico a grana (já com novo nome) para o vencedor do festival ampliado para trezentos mil cruzados novos. Este festival é considerado por muitos como o melhor já realizado no país, ou pelo menos o que teve a maior repercussão. Isso porque duas canções disputavam, voto a voto, a opinião do público e, praticamente, dividiram o Brasil ao meio: A banda, de Chico Buarque, tendo Nara Leão como intérprete, e Disparada, de Théo de Barros e Geraldo Vandré, defendida por Jair Rodrigues.

Depois de 40 minutos de reunião entre os jurados, começou a circular o boato de que haveria um empate. Mas o júri optou por A banda, sete votos contra três. Sabendo disso, Chico Buarque, ainda nos bastidores, se apressou e pediu que o prêmio fosse dividido. Assim foi e todo mundo saiu satisfeito. A banda engrenou uma bela carreira no exterior, sendo regravada em vários outros países, entre eles a Argentina, Itália e Estados Unidos. Das outras concorrentes, apenas Ensaio geral, de Gilberto Gil, conseguiu sucesso.

No mesmo ano de 66, o Rio sediou outro concurso que, juntamente com o Festival da Record, teria força comercial, apelo popular, status e relevância de uma forma geral: o Festival Internacional da Canção (FIC). Antes das feras internacionais chegarem ao Brasil para defenderem as canções representantes de seus países, a parte nacional do concurso fazia o clima, arrastando multidões ao ginásio do Maracanãzinho e acirrando discussões que se tornaram lendas.

Nesta primeira edição, o FIC levou verdadeiras torcidas organizadas para a finalíssima no Maracanãzinho, que viram Saveiros, de Nelson Motta e Dori Caymmi, levar o Galo de Ouro, símbolo do festival. Com um arranjo completamente diferente, Saveiro não ficara entre as 12 finalistas do festival da Excelsior dois anos antes.

Geraldo Vandré mantinha a regularidade e chegava entre os primeiros, conquistando o segundo lugar com O cavaleiro. Dia das rosas, de Luiz Bonfá e Maria Toledo, conseguiu o terceiro lugar. No final, o saldo foi positivo, com grandes nomes da MPB concorrendo na parte nacional do concurso e alguma das maiores estrelas da música internacional presentes no Rio para defender as músicas de seus países.

Em 1967 os hippies pregavam o amor livre mundo a fora, a Tropicália se tornava uma realidade nacional e os festivais eram uma febre que contagiava o país inteiro. Foram realizados 12 deles em várias cidades do Brasil. Mas chegou o III Festival da Record e todas as atenções se voltaram para ele. Os compositores sabiam que esse era o caminho mais curto para a gravação de um disco ou a consolidação de uma carreira. Numa das mais fortes disputas da história dos festivais, Ponteio, do já veterano, Edu Lobo com Campinam, levou a viola de ouro. Domingo no parque, de Gilberto Gil, ficou com o segundo lugar; Roda Viva, de Chico Buarque, em terceiro; e Alegria, Alegria, de Caetano, em quarto.

Mas o grande acontecimento (típico de festivais) foi o acesso de ira de Sérgio Ricardo. Sérgio seria, por sorteio, o oitavo a se apresentar, mas o simples anúncio de seu nome e da canção que defenderia, Beto bom de bola, as vaias (apenas porque o público não gostava da música) tiveram início. Antes de começar a cantar, Sérgio Ricardo pede “calma” ao público, mas de nada adiantou. Ele então foi em frente debaixo de vaia mesmo, até que, inseguros, Sérgio e o conjunto que o acompanhava começaram a atravessar o ritmo da música.

O compositor, irônico, parou no meio da música e mandou essa: “quando terminar o festival vou mudar o nome da música para Beto bom de vaia”. Isso só fez aumentar as vaias, até que Sérgio desistiu. Completamente fora de si, o cantor foi até a beira do palco e disparou: “Vocês ganharam! Vocês ganharam! Isso é o Brasil subdesenvolvido! Vocês são uns animais!”. Em seguida ele espatifou o violão sobre um banquinho de madeira, o atirou sobre o público e saiu do palco descontrolado. O gesto o desclassificou do festival, mas entrou para a história da música brasileira.

Passado mais de trinta anos do famoso gesto, Sérgio Ricardo vê com outros olhos os festivais. “Eles eram positivos para os novos compositores, que precisavam mostrar seus trabalhos. Eu já era conhecido e não deveria ter concorrido, mas para Chico, Gil, Caetano, Edu Lobo e outros, os festivais foram importantes. Hoje as gravadoras só pensam em retorno comercial e não em cultura. Isso é sério, porque pessoas de valor não encontram meios de divulgar seus trabalhos e os festivais cumpriam esse papel”.

Atualmente Sérgio Ricardo está em estúdio preparando seu novo CD, depois de ter feito a trilha da novela Mandacaru e ter musicado o cordel de Carlos Drummond de Andrade, a História de João e Joana. O compositor conta que seus trabalhos posteriores ao festival de 67 não sofreram as conseqüências de seu ato. “E verdade que eu fiquei um pouco estigmatizado, mas isso não me afetou. Eu fui fazer outros trabalhos com cinema, com pintura...”. A única crítica de Sérgio aos festivais é quanto ao comercialismo dos concursos. “Eu e a brisa, de Jonny Alf, por exemplo, foi desclassificada de um festival, e, no entanto, era a música mais bonita. O importante era fazer com que as TVs tivessem audiência, depois vinha a música”, lamenta.

Sem tanta polêmica, o II FIC, realizado também em 67, revelou o talento de Milton Nascimento, que defendeu Travessia, de composição e letra de Fernando Brandt. Num maracanãzinho eufórico, quem levou o primeiro lugar, no entanto, foi Margarida, de Gutemberg Guarabira. Cínara e Cibelle defenderam a favorita do público, Carolina, de Chico Buarque, que acabou levando o terceiro lugar.

 

 

 

Fonte : Revista Backstage - Edição 45  por Luis Alexandre Coelho

 

 

 

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