UM ARRASTÃO NA MPB -
Parte II
Em
1960 foi realizado o primeiro festival considerado de música
popular brasileira. Batizada de A Mais Bela Canção de
Amor, a disputa foi realizada por Abrahão Medina e
realizada na orla da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio.
Canção em tom maior, de Ari Barroso, ficou em primeiro
lugar. Em segundo ficou a música Ternura antiga, de
Dolores Duran e Ribamar, interpretada por Ellen de Lima.
Três
anos mais tarde, a história dos festivais deu mais um
passo com a realização de Uma Canção Por Um Milhão.
No ano seguinte, o primeiro festival pós-golpe, já
inflacionado, passou a se chamar Dez Milhões Por Uma
Canção. Ellen de Lima era intérprete da canção
vencedora, A lei do mais fraco, parceria de Jaconina e
Murilo Latim. Esses primeiros festivais, no entanto,
eram musicalmente fracos, por isso não tiveram muita
repercussão e serviram como uma espécie de esboço
para os festivais que vieram a ser realizados.
Em
1965, a TV Excelsior realizou o I Festival de Música
Popular Brasileira, dando o pontapé inicial para a nova
era nos festivais da canção. Deste saiu o primeiro
grande fenômeno dos festivais: Arrastão, de Edu Lobo e
Vinícius de Morais, interpretada por Elis Regina. A música
não apenas levou o primeiro lugar e uma gorda premiação
em dinheiro, como caiu na boca do povo, foi consagrada e
pulou para os primeiros lugares nas paradas de sucesso e
nas listas de vendagem de discos.
Mais
ainda: Arrastão ganhou mais de 50 regravações, virou
tema de filme e sua intérprete, Ellis Regina, na época
com 21 anos, passou a figurar entre os grandes nomes da
MPB. Fenômeno tão grande fez passar desapercebido o
samba Sonho de Carnaval, do então anônimo Chico
Buarque de Holanda. Classificada entre as 12 finalistas,
a música foi defendida pelo também desconhecido
Geraldo Vandré. Não é exagero dizer que a realização
dos festivais seguintes e a sua qualidade foram conseqüência
da performance que a música de Edu Lobo e Vinícius de
Morais obteve na mídia. Sua fantástica repercussão
atentou para o potencial dos festivais.
Para
o autor de Arrastão, Edu Lobo, toda essa mídia e mesmo
a existência dos festivais eram impulsionados pela
televisão. “Os festivais eram mais programas de
televisão do que qualquer outra coisa. Naquela época
existiam muitos programas de músicas na televisão. Mas
apesar de tudo os festivais eram positivos porque a TV
era uma grande vitrine; foi legal pra todo mundo como
exposição”, conta Edu, que considera Ponteio,
vitoriosa dois anos depois, e não arrastão, como um
marco na sua carreira.
Deste
mesmo festival, outras duas canções merecem destaque.
Preciso aprender a ser só, de Marcos e Sérgio Vale –
um dos maiores sucessos de vendagem daquele ano e
vencedor do prêmio JB de melhor música -, e Saveiros,
de Dori Caymmi e Nélson Motta – vencedor da parte
nacional do I Festival Internacional da Canção (FIC),
em 66. O detalhe é que as duas sequer foram
classificadas entre as 12 finalistas do festival da
Excelsior e, já aí, começavam as polêmicas em torno
da capacidade do júri e da interferência de interesses
externos nas decisões dos festivais.
A
própria Arrastão comprova esta duvidosa capacidade do
júri, uma vez que a música que veio a ser a grande
vencedora do festival fora anteriormente preterida pela
banca selecionadora, ficando em seu lugar Aleluia, outra
composição de Edu Lobo. Foi o próprio Edu quem pediu
pela troca, considerando que Arrastão era mais forte
para participar de um festival. Surgiu daí também a idéia
de “música de festival”, uma classificação
pejorativa para as composições mais preocupadas em
empolgar o público logo de início do que com a
qualidade musical.
Edu
Lobo critica os critérios do julgamento dos festivais.
“Várias músicas fantásticas não ganharam
festivais. Uma balada dificilmente ganharia um festival
concorrendo com um baião, por exemplo, que tem uma
estrutura rítmica muito mais complexa. E como é que se
compara um choro com um baião pra dizer qual é o
melhor?”, questiona.
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Curiosidade
- CADÊ A CAMPEÃ?
Em
1965, o maestro Júlio Medalha, durante uma
festa particular, teve a oportunidade de ouvir
uma música. Tratava-se de porta-estandarte, de
Geraldo Vandré e Fernando Lona, que, segundo
lhe informaram, estava inscrita no Festival da
TV Record. No dia seguinte, comentando sobre a música
com a emissora, Júlio Medalha ficou sabendo,
espantando, que a composição não estava
classificada entre as 36 finalistas. Pior: ninguém
da comissão selecionadora sequer havia escutado
a música. O maestro, então, interveio, pedindo
que a canção fosse ouvida, o que foi feito. O
resultado é conhecido: Porta-estandarte venceu
o concurso.
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Fonte
: Revista
Backstage - Edição 45 por Luis Alexandre Coelho
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