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PRA
NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DOS FESTIVAIS (1 ª
Parte )
Há
quase trinta anos, mais precisamente na noite de 28 de
setembro de 1968, Caetano Veloso era quase que
literalmente espinafrado no palco no Tuca, Teatro da
Universidade Católica em São Paulo. O episódio –
que fez Caetano reagir a uma chuva de ovos e tomates com
um dos mais contundentes discursos da história recente
do país – faz parte de um dos mais interessantes capítulos
da música popular brasileira: o que trata dos festivais
da canção.
Celebrados
por uns, execrados por outros, os festivais de música
popular são importantes para o processo de formação
da atual música popular brasileira. Por eles passaram
compositores da grandeza de Tom Jobim, Caetano Veloso,
Gilberto Gil, Chico Buarque, Milton Nascimento, Edu
Lobo, Geraldo Vandré, Toquinho, Paulo César
Pinheiro... Também não foram poucos os intérpretes
que chegaram ao sucesso pela via do vestibular dos
festivais. Elis Regina, Jair Rodrigues, Os Mutantes, Gal
Costa, Amelinha são alguns nos intrépidos intérpretes
(não deu pra resistir ao trocadilho) que se arriscaram
a levar as mesmas vaias, ovos e tomates que despertaram
a ira de Caetano, tudo em busca de um lugar ao sol no
cenário da MPB. Mas por onde andam os festivais? O que
aconteceu com uma das principais vitrines da música
popular no país? Que formas os festivais têm hoje?
Tentando
responder a essas e outras questões, embarquemos numa
viagem pelo tal túnel do tempo para reviver o melhor e
o pior dos festivais. Quando surgiram, as histórias dos
bastidores, as revelações, as injustiças, um histórico
dos principais festivais do Brasil, a participação
destes na vida sociocultural do país... Nas próximas páginas,
vamos relembrar um pouco dessa história. Do acesso de fúria
de Sérgio Ricardo, quebrando seu violão e lançando-o
sobre a platéia em 67, ás vaias para Purpurina em 81.
Vamos lembrar das discussões sobre qual música é a
melhor, se Sabiá ou pra não dizer que não falei das
flores, que dividiram o público em 68, da polêmica
intervenção do regime militar no resultado do FIC de
72 e de muitas outras histórias dos bastidores.
A
palavra “festival” pode compreender eventos tão
diversos quanto o Rock in Rio Festival. Um mega-evento
de números astronômicos, e os festivais de inverno das
cidades do interior do país. Entre um extremo e outro,
há uma infinidade de encontros, concursos, saraus,
entre outros et céteras musicais, todos sob o título
de festival, competitivos ou não. Fora da esfera da música,
então é um festival de festivais. Festival do Vinho de
Sei-lá-onde, Festival da Soja de Algum Lugar, Festival
de Dança de Ali Longe, Festival Agropecuário de Onde
Judas Perdeu as Botas e por aí vai.
Mas
o que ficou conhecido como “os festivais” são, na
verdade, os festivais de Música Popular que nasceram e
tiveram seu auge de popularidade nos anos 60.Mais
precisamente entre os festivais realizados entre 1966 e
1968, período que pode ser considerado “a era de ouro
dos festivais”. Entre vários concursos diferentes,
dois tiveram um papel decisivo para a construção da idéia
que se tem hoje sobre essa época áurea dos festivais:
o Festival de Música Popular da TV Record e o Festival
Internacional da Canção, o FIC.
Na
segunda metade da década de 60, principalmente, esses
festivais sacudiram o Brasil anualmente e levaram multidões
aos auditórios e ginásios, promovendo uma febre
popular só comparável ao carnaval. Em artigo
entitulado Cantiga por este Rio, de 13 de outubro de 69,
Edgard de Alencar definiu da seguinte forma o fenômeno
dos festivais: “Um dos acontecimentos maiores talvez
do mundo e o maior do Brasil como festa para o povo, só
cedendo lugar ao honroso Carnaval carioca”.
Seja
pelo prestígio desses dois concursos, pela veiculação
na TV ou pelos prêmios oferecidos, tanto os Festivais
da Record quanto os Festivais Internacionais da Canção
conseguiam reunir e lançar a nata dos novos
compositores do país, o que só fazia crescer o status
de ambos e de seus participantes. Tudo, porém, teve início
bem antes, longe dos auditórios de TV e de ginásios
como o Maracanãzinho. Sem muita mídia, sem muito
glamour, mas enfim, já com o embrião dos grandes
festivais da canção.
Fonte
: Revista
Backstage - Edição 45 por Luis Alexandre Coelho
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